Agora as pesquisas começam a funcionar para valer. A população começa a se tocar com a eleição.
Ainda , nesta semana, os indecisos são 50%, mas com uma tendência clara de como caminha a eleição.
A polarização e a rejeição foram e serão os fatores principais. Acho que o voto útil em ambos os lados vai prevalecer, apesar de que no PT o voto é concentrado em algumas regiões e locais que podem ser explicadas por vários motivos.
18 anos de governo do PT e 40 de Lula já cansaram a maior parte da população. Os extratos das pesquisas mostram isso claramente. O Nordeste ainda é o reduto eleitoral do PT. A pobreza e a dependência dos programas sociais em parte explicam isso. O sudeste já teve mais votos petistas, mas claramente perderam terreno.
Já disse, não tenho bola de cristal e nem sou pitonisa, mas gosto de estudar as pesquisas e o assunto me interessa e me diverte.
A análise que fiz é baseada nas pesquisas desta semana. Pode mudar? Claro, a política é como as nuvens, diria Magalhães Pinto, mas quanto mais perto do dia da eleição, mais a realidade se impoem.
Hoje eu diria que o Flávio Bolsonaro ganha e pode ser no primeiro turno. Não que seja o candidato dos sonhos, mas é o voto útil para derrotar o PT e Lula. O movimento das curvas das últimas pesquisas mostram claramente isso.
O fantasma das urnas e do roubo nunca mais sairão da nossa história. Muitos fatos corroboram estes receios, mas eu pessoalmente não acredito que haja "roubo" e fraude sistêmica. Isoladamente e pontualmente eu tenho certeza que tem, mas não a ponto de comprometer o resultado. Minha opinião é esta.
O papel do STF e do TSE pode mudar e influenciar? Com certeza e em 2022 tivemos amostras de politização do judicário que é outro problema do Brasil atual. O episódio de hoje com a cassação da candidatura do Deltan Dalagnol pode pesar contra o incubente e o judiciário, e muito.
A pauta continua a ser: Segurança pública, corrupção e STF. Agora parace ter invertido a ordem: STF, Segurança pública e corrupção. Os três temas são pontos fracos para o PT, mais fracos do que para o Flávio. Eu acho.
Vamos lá. Um estudo que fiz e explica algumas variáveis que podem interferir na reta final, aliás já interferem.
Deixo claro que não é um tratado de sociologa e nem político estas minhas considerações. São uma visão pessoal e uma percepção somente.
A conferir, por isso deixo registrado aqui.
Os dados das últimas
pesquisas divulgadas em setembro indicam uma inflexão clara na trajetória da reta final,
caracterizada por uma aproximação e subida gradual de Flávio Bolsonaro (PL)
combinada com a oscilação para baixo ou estagnação de Lula (PT).
Os levantamentos da Quaest e do Datafolha mostram os seguintes vetores de movimento:
1. Inflexão no 2º Turno (Cruzamento de Linhas)
·
Cruzamento inédito na Quaest (14/set): No cenário de 2º turno, Flávio Bolsonaro passou para a
liderança numérica com 42%
das intenções de voto contra 40% de Lula (empate técnico no limite da margem de
erro).
·
A trajetória dos últimos 30 dias:
o
Meados de Agosto: Lula
43% x 40% Flávio.
o
Início de Setembro: Lula
41% x 41% Flávio.
o
Metade de Setembro:
Flávio 42% x 40% Lula.
2. Estreitamento no 1º Turno
·
Quaest (14/set):
·
Datafolha (17/set):
Onde está acontecendo a virada?
De acordo com os diretores e analistas das pesquisas, o
movimento de subida de Flávio e compressão das margens de Lula se deve a dois
fatores centrais:
1.
Adesão
dos Eleitores Independentes (Sem Apadrinhamento): Pela
primeira vez desde agosto, Flávio ultrapassou Lula fora da margem de erro entre
os eleitores que não se identificam puramente nem como "lulistas" nem
como "bolsonaristas".
2.
Consolidação
dos Votos da Terceira Via: Candidatos como Ronaldo Caiado, Augusto Cury e
Renan Santos perderam ligeira atração, e a migração natural do voto útil do
eleitorado de centro-direita acelerou a subida de Flávio na reta final.
Mercados de Apostas - Polymarket e outro - Acertam muito, principalmente na reta final.
Diferente das pesquisas eleitorais tradicionais (que
medem intenção de voto do eleitorado), os sites de previsão financeira/apostas
como o Polymarket medem a
probabilidade percebida pelos apostadores/investidores de quem vai vencer:
·
Odds Atuais: A cotação reflete
oscilações com ligeira vantagem de probabilidades para Flávio Bolsonaro (entre 52% e
54%) contra Lula (entre
45% e 47%).
·
Como interpretar:
Sites proibidos no Brasil
Kalshi (EUA)
·
Como funciona: É uma das principais plataformas
norte-americanas reguladas pela CFTC (Comissão de Negociação de Futuros de
Commodities dos EUA). Trabalha com contratos de
"Sim/Não" no estilo derivativo financeiro.
·
Cenário Atual: Mostra um mercado bastante volátil e
apertado entre Flávio
Bolsonaro (com cerca de 55% a 58%) e Lula (com 42% a 45%) em probabilidade de vitória.
·
Perfil do público: Investidores institucionais e
operados com dólares/dólar digital via transferência bancária tradicional nos
EUA.
A canetinha prometida, a picanha de 2022 e Reajuste
do Bolsa Família Tiro no Pé
A
“canetinha” prometida vai acabar repetindo a história da picanha de 2022? Pode ser e forte.
O
reajuste do Bolsa Família anunciado agora é de 15,04%. O benefício mínimo passa
de R$ 600 para R$ 691 e o benefício médio estimado sobe de R$ 675 para R$ 777.
Considerando
o eleitorado de 2026, de 158,7 milhões de pessoas, e utilizando uma estimativa
por faixas de renda, a distribuição da base de menor renda seria
aproximadamente:
|
Classe |
Perfil |
%
estimado |
Eleitores |
|
E |
Extrema pobreza / beneficiários
do Bolsa Família |
25%–30% |
40–45 milhões |
|
D |
Baixa renda sem benefício |
25%–28% |
38–43 milhões |
|
C |
Classe média baixa /
trabalhadores |
28%–30% |
43–47 milhões |
|
C + D |
Trabalhadores e classe média
baixa |
53%–58% |
82–90 milhões |
Por que o
ganho na classe E pode ser menor que a perda na C e na D?
Primeiro,
pelo tamanho da população. A classe E pode reunir 40 a 45 milhões de eleitores, enquanto C e D,
juntas, podem chegar a 82 a 90 milhões. Portanto, uma pequena mudança de
preferência nas classes C e D pode representar mais votos do que uma mudança
maior dentro da classe E.
Segundo,
pelo efeito teto. Se o
governo já possui forte apoio entre os eleitores de menor renda, aumentar o
benefício pode consolidar votos que já estavam próximos do governo, mas não
necessariamente produzir a mesma quantidade de novos votos.
Terceiro,
pela sensação de tratamento desigual. O trabalhador que ganha pouco mais do limite do
programa pode receber apenas a conta mais alta do supermercado, sem receber o
reajuste do benefício. Se ele interpretar a medida como favorecimento de quem
está fora do mercado formal, a reação pode ocorrer justamente na classe D e em
parte da classe C.
A
matemática eleitoral é simples: não é preciso perder muitos pontos
percentuais nas classes C e D para neutralizar alguns pontos ganhos na classe E,
porque a população potencialmente afetada é muito maior. Além da medida ser
escancaradamente eleitoreira e revoltante.
Uma
medida destinada a reforçar a renda dos mais pobres pode também criar uma
pergunta incômoda entre milhões de trabalhadores:
“E eu,
que trabalho e pago impostos, ganho o quê?”
O problema do "ganha
aqui, perde ali"
Beneficiário do Bolsa Família
efeito
provável da medida:
- percepção positiva;
- aumento da renda disponível;
- reforço da associação entre
benefício e governo;
- possibilidade de redução de
eventual insatisfação.
Mas ele já
era majoritariamente favorável a Lula na pesquisa.
Não beneficiário de baixa renda
Aqui a
reação é mais ambígua.
Pode
ocorrer:
efeito
positivo → "o
governo está ajudando os mais pobres."
ou
efeito
negativo → "eu trabalho e não
recebo."
E esse
segundo grupo é numericamente importante.
Sumário da tese
O
reajuste de 15% do Bolsa Família pode produzir um paradoxo eleitoral. Ele
fortalece a relação do governo com os beneficiários, mas esse grupo já
apresenta elevada preferência por Lula. O efeito marginal, portanto, tende a
depender menos da conquista de novos beneficiários e mais da reação dos milhões
de brasileiros de baixa renda que trabalham, possuem renda semelhante ou pouco
superior ao limite do programa e não recebem o benefício. Para esses eleitores,
o reajuste pode ser percebido tanto como proteção social quanto como diferença
de tratamento em relação ao trabalhador que não recebe transferência. O ponto
decisivo da análise não é quantos votos o reajuste acrescentará entre
beneficiários, mas se eventual ganho nesse grupo será acompanhado ou não por
alguma reação negativa entre os não beneficiários de baixa renda. Os dados
atuais permitem identificar essa hipótese, mas ainda não permitem quantificar
uma eventual perda de votos causada pelo reajuste.
Tamanho do eleitorado
O TSE
contabiliza 158,7 milhões de eleitores aptos em 2026.
O
Datafolha de setembro encontrou 20% dos entrevistados recebendo Bolsa
Família ou morando com alguém que recebe.
Aplicando
os 20% ao eleitorado:
158,7
milhões × 20% = 31,7 milhões de eleitores no universo BF/domicílio BF.
Portanto:
|
Grupo |
Eleitores
aproximados |
|
BF ou morador de domicílio BF |
31,7 milhões |
|
Não BF |
127,0 milhões |
|
Total |
158,7 milhões |
Isso é
uma aproximação porque o Datafolha mede pessoas entrevistadas, enquanto o TSE
mede eleitores aptos.
E como isso se distribui
pelas classes?
Aqui
temos uma base particularmente interessante da FGV Social.
Em 2024,
a FGV estimou:
- Classe E: 7,56%
- Classe D: 15,00%
- Classe C: 59,39%
- Classe AB: 18,06%
Aplicando
essas proporções aos 158,7 milhões de eleitores como proxy:
|
Classe |
%
população |
Eleitores
equivalentes |
|
E |
7,56% |
12,0 mi |
|
D |
15,00% |
23,8 mi |
|
C |
59,39% |
94,2 mi |
|
AB |
18,06% |
28,7 mi |
|
Total |
100% |
158,7 mi |
A FGV
também mostra uma informação extremamente relevante para nossa tese: entre
pessoas em domicílios com Bolsa Família, a concentração nas classes E e D é
muito maior. Na medida per capita, 20,49% estavam na E e 36,83% na D em
2024. Entre os não beneficiários, eram 3,60% e 8,32%, respectivamente.
Ou seja: o
Bolsa Família está fortemente concentrado no universo E/D.
O número que interessa para
a hipótese
Temos
aproximadamente:
E + D =
35,8 milhões de eleitores.
O
universo BF/domicílio BF é aproximadamente:
31,7
milhões.
Isso
significa que, grosso modo, a maior parte do universo E/D está dentro ou
próxima do universo atingido pelo Bolsa Família, mas não todo ele.
Sob essa
aproximação:
35,8 mi
E+D − 31,7 mi BF ≈ 4,1 milhões
seriam um
pequeno, mas politicamente interessante, grupo de E/D que não recebe ou não
convive diretamente com o Bolsa Família.
É
justamente aí que a tese começa a ficar quantitativamente interessante.
O ponto de equilíbrio é
muito interessante
Essa
talvez seja a informação mais importante do modelo.
Se o
reajuste gerar:
+3 p.p. entre os 31,7 milhões do universo BF
o ganho
é: 951 mil votos.
Portanto,
basta que os outros grupos produzam conjuntamente uma perda de 951 mil votos
para neutralizar completamente o benefício.
Isso
equivale a: 951 mil ÷ 127 milhões =
0,75%
Portanto:
Se Lula ganhar 3 pontos no universo BF, uma perda
média de apenas 0,75 ponto percentual entre os 127 milhões de não beneficiários
já anularia matematicamente esse ganho.
A verdadeira hipótese para
testar nas urnas
"O
reajuste do Bolsa Família poderá reforçar Lula entre os beneficiários, mas o
efeito líquido dependerá de eventual transferência dessa percepção para a
classe D não beneficiária e, principalmente, para parcelas da classe C
trabalhadora."
Porque a
classe C tem aproximadamente 94 milhões de eleitores equivalentes na
nossa aproximação.
Um
movimento de apenas:
1 ponto
percentual na classe C = aproximadamente 942 mil votos.
É
praticamente exatamente o tamanho do ganho de 3 pontos no universo BF.
A matriz
Tamanho dos principais blocos
eleitorais
Estimativa
usando o eleitorado de 158,7 milhões de 2026 e as participações de classes
econômicas da FGV Social de 2024 como proxy.
025 mi50 mi75 mi100 mi
BF / domicílio BF
Classe E
Classe D
Classe C
Classe AB
Valores
são aproximações; classes econômicas da FGV referem-se à população, não ao
eleitorado.
Teste de sensibilidade
|
Ganho
BF |
Perda
não-BF |
Resultado
aproximado |
|
+1 p.p. |
−0,25 p.p. |
praticamente neutro |
|
+2 p.p. |
−0,50 p.p. |
aproximadamente neutro |
|
+3 p.p. |
−0,75 p.p. |
neutro |
|
+3 p.p. |
−0,50 p.p. |
+317 mil |
|
+3 p.p. |
−1,00 p.p. |
−317 mil |
|
+3 p.p. |
−1,50 p.p. |
−951 mil |
|
+3 p.p. |
−2,00 p.p. |
−1,585 mi |
A
matemática não sustenta ainda a afirmação de que o aumento necessariamente
prejudicará Lula, mas ela sustenta algo mais interessante:
um ganho de 3 pontos no Bolsa Família é
relativamente pequeno em relação ao tamanho do eleitorado não beneficiário.
Com 31,7
milhões no universo BF, 3 pontos = 951 mil votos.
Já 1
ponto na classe C = 942 mil votos.
Portanto, uma oscilação de apenas 1 ponto na
classe C tem praticamente o mesmo peso eleitoral que uma oscilação de 3 pontos
entre os beneficiários do Bolsa Família.
H0: o reajuste melhora a posição de
Lula predominantemente entre beneficiários e não produz reação relevante nos demais
grupos.
H1: o reajuste melhora Lula entre
beneficiários, mas produz uma reação negativa mensurável entre não
beneficiários de baixa renda, especialmente na classe D/C trabalhadora.
O dado
mais interessante para acompanharmos nas próximas pesquisas será, portanto, não
apenas Lula entre beneficiários, mas Lula entre eleitores de 2 a 5 salários
mínimos e entre trabalhadores que não recebem Bolsa Família.
A
pesquisa já mostra que existe uma diferença estrutural: entre
beneficiários/domicílios BF, Lula tinha 53%, contra 36% entre não
beneficiários.
É exatamente nessa diferença que a nossa experiência de outubro poderá dizer se a hipótese estava correta.